Inspiration

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16 maio, 2025

Sobre a Permanência em um Mundo de Fluxo


"Nenhum homem entra no mesmo rio duas vezes, pois já não é o mesmo homem, nem é o mesmo rio."
— Heráclito de Éfeso


Vivemos em um universo onde o fluxo e a transformação parecem reger a tessitura de todas as coisas perceptíveis. Desde os ciclos da natureza até os alicerces das estruturas sociais, tudo indica que a impermanência é a condição ontológica dominante da existência manifesta. Contudo, ao lado desta correnteza incessante de mutabilidade, subsistem fenômenos cuja natureza se distingue precisamente por sua resistência à dissolução, por sua estabilidade estrutural ou por sua transcendência metafísica. A estes, poder-se-ia atribuir, com prudência filosófica, o predicado da permanência.

Entre tais fenômenos, figuram cinco categorias particularmente notáveis, que, embora diversas entre si quanto ao domínio a que pertencem — físico, lógico, simbólico ou espiritual —, compartilham a notável característica de não se deixarem corroer pelo tempo, pela cultura ou pela contingência histórica. Cada uma, à sua maneira, permanece imune aos ventos da transformação que varrem as paisagens do mundo visível e das instituições humanas.

 As leis da física (na vigência de seu modelo teórico)

As chamadas “leis naturais” — como a conservação da energia, a gravitação universal ou os princípios da termodinâmica — representam uma espécie de arcabouço lógico do cosmos físico. Enquanto vigentes no escopo de um paradigma científico, estas leis apresentam-se como universais, estáveis, e imunes às flutuações sociais ou subjetivas. Embora passíveis de revisão epistêmica à luz de novas descobertas, no interior do sistema que as abriga, elas conservam a aparência de um absoluto: não evoluem, não se decompõem, não se desfazem — apenas subsistem, operando como constantes estruturais do real empírico.

 As entidades matemáticas


No domínio da matemática pura, encontramos talvez o mais elevado grau de permanência concebível por uma mente humana. Entidades como o número π, o conjunto dos primos ou os axiomas da geometria euclidiana não apenas transcendem o tempo e o espaço, como não estão sujeitos ao devir em qualquer sentido físico ou histórico. Não há época, cultura ou evento que possa afetar a validade de que 2 + 2 = 4. Tais verdades são absolutas no plano lógico, e sua permanência não depende do mundo, pois pertencem a uma esfera intelectualmente imaculada, onde o ser não se confunde com o vir-a-ser.

 Os modelos físicos ideais

Constituindo abstrações teóricas cuidadosamente destiladas do mundo concreto, os modelos físicos ideais — tais como o pêndulo perfeito, o vácuo absoluto ou a partícula pontual — são construções intencionalmente isoladas da instabilidade do mundo real, precisamente para permitir o estudo puro das relações entre forças, movimentos e equações. Sua imutabilidade é postulada como condição de existência, e sua função não é descrever o mundo tal como ele é, mas fornecer um horizonte de referência estável a partir do qual o mundo possa ser compreendido.

 Os arquétipos simbólicos


Nas profundezas do imaginário coletivo, há estruturas simbólicas que se reiteram ao longo da história humana com uma constância que transcende culturas, idiomas ou sistemas religiosos. Carl Gustav Jung denominou tais formas de “arquétipos” — imagens primordiais do inconsciente coletivo. Embora assumam roupagens diversas nas mitologias particulares de cada povo, esses arquétipos não se desvanecem com o tempo; reencenam-se perpetuamente no drama psíquico da humanidade, sugerindo uma permanência estrutural inscrita nas profundezas do ser.

 Os princípios metafísicos absolutos (como o Rigpa ou o Brahman)

No campo da espiritualidade e da metafísica, encontramos proposições de um outro nível de permanência — aquela que não é apenas resistência ao tempo, mas superação radical do tempo e da mudança. Seja no Vedānta, com a noção de Brahman como o absoluto imutável, sem forma e sem atributos; seja no Dzogchen tibetano, com a experiência de Rigpa, a consciência primordial não dual, pura e espontaneamente presente — trata-se de uma realidade que não nasce, não morre, não se transforma. Aqui, a permanência assume sua forma mais elevada: é a própria negação da impermanência, não como oposição, mas como transcendência.



Concluindo, ao contrário dos fenômenos históricos, biológicos ou culturais — que se submetem inevitavelmente ao ciclo do surgimento e da dissolução —, estes cinco tipos de fenômenos se destacam por sua estabilidade ontológica ou funcional. Eles não "se desmancham no ar", porque não pertencem inteiramente ao ar, ao tempo, ou ao mundo fenomênico. Assim, reconhecer a distinção entre esses domínios é mais do que uma questão de classificação: é uma exigência epistemológica e existencial. Pois compreender o que muda e o que não muda é, em última instância, compreender quem somos nós, neste vasto teatro do real.


Fontes de consulta:

 Berman, Marshall. *Tudo que é Sólido Desmancha no Ar*. Companhia das Letras, 1986.

Bauman, Zygmunt. *Modernidade Líquida*. Jorge Zahar Editor, 2001.

Jung, Carl Gustav. *O Homem e seus Símbolos*. Nova Fronteira, 2002.

Capra, Fritjof. *O Tao da Física*. Cultrix, 1975.

Padmasambhava. *O Livro Tibetano dos Mortos*. Pensamento, edições diversas.

Radhakrishnan, Sarvepalli. *The Principal Upanishads*. HarperCollins, 1994.



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