"Nenhum
homem entra no mesmo rio duas vezes, pois já não é o mesmo homem,
nem é o mesmo rio."
— Heráclito de Éfeso
Vivemos em um
universo onde o fluxo e a transformação parecem reger a tessitura
de todas as coisas perceptíveis. Desde os ciclos da natureza até os
alicerces das estruturas sociais, tudo indica que a impermanência é
a condição ontológica dominante da existência manifesta. Contudo,
ao lado desta correnteza incessante de mutabilidade, subsistem
fenômenos cuja natureza se distingue precisamente por sua
resistência à dissolução, por sua estabilidade estrutural ou por
sua transcendência metafísica. A estes, poder-se-ia atribuir, com
prudência filosófica, o predicado da permanência.
Entre
tais fenômenos, figuram cinco categorias particularmente notáveis,
que, embora diversas entre si quanto ao domínio a que pertencem —
físico, lógico, simbólico ou espiritual —, compartilham a
notável característica de não se deixarem corroer pelo tempo, pela
cultura ou pela contingência histórica. Cada uma, à sua maneira,
permanece imune aos ventos da transformação que varrem as paisagens
do mundo visível e das instituições humanas.
As leis
da física (na vigência de seu modelo teórico)
As
chamadas “leis naturais” — como a conservação da energia, a
gravitação universal ou os princípios da termodinâmica —
representam uma espécie de arcabouço lógico do cosmos físico.
Enquanto vigentes no escopo de um paradigma científico, estas leis
apresentam-se como universais, estáveis, e imunes às flutuações
sociais ou subjetivas. Embora passíveis de revisão epistêmica à
luz de novas descobertas, no interior do sistema que as abriga, elas
conservam a aparência de um absoluto: não evoluem, não se
decompõem, não se desfazem — apenas subsistem, operando como
constantes estruturais do real empírico.
As entidades
matemáticas
No domínio da matemática pura, encontramos
talvez o mais elevado grau de permanência concebível por uma mente
humana. Entidades como o número π, o conjunto dos primos ou os
axiomas da geometria euclidiana não apenas transcendem o tempo e o
espaço, como não estão sujeitos ao devir em qualquer sentido
físico ou histórico. Não há época, cultura ou evento que possa
afetar a validade de que 2 + 2 = 4. Tais verdades são absolutas no
plano lógico, e sua permanência não depende do mundo, pois
pertencem a uma esfera intelectualmente imaculada, onde o ser não se
confunde com o vir-a-ser.
Os modelos físicos
ideais
Constituindo abstrações teóricas cuidadosamente
destiladas do mundo concreto, os modelos físicos ideais — tais
como o pêndulo perfeito, o vácuo absoluto ou a partícula pontual —
são construções intencionalmente isoladas da instabilidade do
mundo real, precisamente para permitir o estudo puro das relações
entre forças, movimentos e equações. Sua imutabilidade é
postulada como condição de existência, e sua função não é
descrever o mundo tal como ele é, mas fornecer um horizonte de
referência estável a partir do qual o mundo possa ser
compreendido.
Os arquétipos simbólicos
Nas
profundezas do imaginário coletivo, há estruturas simbólicas que
se reiteram ao longo da história humana com uma constância que
transcende culturas, idiomas ou sistemas religiosos. Carl Gustav Jung
denominou tais formas de “arquétipos” — imagens primordiais do
inconsciente coletivo. Embora assumam roupagens diversas nas
mitologias particulares de cada povo, esses arquétipos não se
desvanecem com o tempo; reencenam-se perpetuamente no drama psíquico
da humanidade, sugerindo uma permanência estrutural inscrita nas
profundezas do ser.
Os princípios metafísicos
absolutos (como o Rigpa ou o Brahman)
No campo da
espiritualidade e da metafísica, encontramos proposições de um
outro nível de permanência — aquela que não é apenas
resistência ao tempo, mas superação radical do tempo e da mudança.
Seja no Vedānta, com a noção de Brahman como o absoluto imutável,
sem forma e sem atributos; seja no Dzogchen tibetano, com a
experiência de Rigpa, a consciência primordial não dual, pura e
espontaneamente presente — trata-se de uma realidade que não
nasce, não morre, não se transforma. Aqui, a permanência assume
sua forma mais elevada: é a própria negação da impermanência,
não como oposição, mas como transcendência.
Concluindo, ao
contrário dos fenômenos históricos, biológicos ou culturais —
que se submetem inevitavelmente ao ciclo do surgimento e da
dissolução —, estes cinco tipos de fenômenos se destacam por sua
estabilidade ontológica ou funcional. Eles não "se desmancham
no ar", porque não pertencem inteiramente ao ar, ao tempo, ou
ao mundo fenomênico. Assim, reconhecer a distinção entre esses
domínios é mais do que uma questão de classificação: é uma
exigência epistemológica e existencial. Pois compreender o que muda
e o que não muda é, em última instância, compreender quem somos
nós, neste vasto teatro do real.
Fontes de consulta:
Berman, Marshall. *Tudo que é Sólido Desmancha no Ar*. Companhia das Letras, 1986.
Bauman, Zygmunt. *Modernidade Líquida*. Jorge Zahar Editor, 2001.
Jung, Carl Gustav. *O Homem e seus Símbolos*. Nova Fronteira, 2002.
Capra, Fritjof. *O Tao da Física*. Cultrix, 1975.
Padmasambhava. *O Livro Tibetano dos Mortos*. Pensamento, edições diversas.
Radhakrishnan, Sarvepalli. *The Principal Upanishads*. HarperCollins, 1994.
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