Inspiration

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21 março, 2022

Levantou bem cedo, fez cafe, tomou e foi pro carro. As malas ja estavam la. Uns 2 anos antes, seu corpo comecou a apodrecer e desde entao, enrrolava trapos para segurar o braco direito que foi o primeiro que viu comecar a ruir, depois a coluna e a testa, logo as pernas, num repente, estava quase coberta de trapos encardidos e ferruginosos para segurar unido o antigo corpo doentio, amarelado mas que era inteiro e tinha apoio. Duas noites anteriores um susto! O corpo diminuiu e escureceu em questao de horas, as pernas ficaramtao finas e pequenas que pareciam nao poder sustentar o tronco. Nada o que se pudesse fazer. A visao e audicao turvas, o tato meio amortecido o pensamento embotado ou nas palavras dela, entranhados. Era tao cedo que ainda estava escuro. Foi dirigindo sozinha pro aeroporto. Nao sabia com perfeita certeza o caminho, como na lamentacao do indio pensava sem saber que pensava: Olhem para mim, estou pobre e nu. Entao fez seua parte do pacto. Cobriu as bandagens imundas com renda francesa e perolas e prometeu cuidar do esqualido doente terminal cuja real esperanca ainda era alguma forma milagrosa de cura. Em algum esconderijo entre os pedacos esfacelados minusculas formas de vida verdadeiras se manifestam, surpresa real ao ver algo nunca visto, um reflexo involuntario de arregalar os olhos como uma crianca, espasmos incontidos, sons guturais jamais emitidos A volta: e se eu sair por essa porta e ele estiver ali me esperando e tudo voltar ao normal? Como um fantasma assombrou a casa por anos. Era um tumulo sempre bem cuidado, limpo e adornado com muitas fores em homenagem ao morto. Um jardim de rosas como usual nos cemiterios americanos, mas mesmo o cemiterio foi sendo abandonado apenas o tumulo foi mal e mal limpo e cuido. Contorceu-se, desesperou-se e esperou que tudo voltasse ao normal cada vez acreditando menos ate que acabou e entao espatifou-se como espatifara-se ja uma vez. Perdeu seu amor, seu chao, agora sem vota, os pedacos podres que ja estavam quase no osso de desgarram destes e so pele e trapos sujos cobriram os ossos tambem ja muito porosos. Andava, apenas andava, a cabeca muito grande para um corpo fragil e pequeno demais para aquela cabeca e orelhas, patinhas frageis e delicadas, um olhar tao medroso, preocupado - o que vai me acontecer? O que vou faer? O que vira? O mundo e enorme e eu tenho que ir. Vou andando, vou procurar alguma coisa ou fugir de alguma coisa? Nao ha palavras para aquela expressao, apenas, eu vou, eu tenho que ir, eu nao tenho alternativa, eu nao tenho mais vida.
A certeza do desamparo e impossibilidade da desistencia. O que vamos fazer?

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